Sprezzatura

Elizabeth aos 9 anos, entre o avôs rei George V e rainha Mary

Hoje talvez não tivéssemos paciência, mas há 20 anos queríamos porque queríamos ir a um restaurante estrelado de Paris. Ligação dois meses antes, e a resposta: muito cedo para reservar. Telefonema um mês antes, e a bomba: já estavam lotados. Solução? Meu amigo acrescentou um nobiliárquico von antes de seu sobrenome (verdadeiro) alemão. Voilà: conseguimos lugar no dia e na hora que desejávamos………… ter von, van, da ou de no sobrenome. Marca a procedência. É o que distinguia as pessoas na Idade Média. O conceito é tão arraigado aos costumes europeus que o ex-presidente Lula é chamado de Da Silva nos jornais portugueses ainda hoje;

ter retrato de família pintado por um grande artista. Com o retratado posando com cara séria, porque sorriso é coisa de plebeu. Antigamente, o pintor era Velázquez; até recentemente, foi Lucian Freud; pelo brasão, que é o currículo vitae dos nobres. Em tempo: a palavra heráldica, da qual adoro a sonoridade, significa leitura de brasão; a nobreza inventou a etiqueta (pequena ética); a burguesia criou a Socila; a nobreza aperfeiçoou o direito à excentricidade. Se a pessoa nasceu nobre, pode quebrar tabus: é considerada excêntrica. Se nasceu plebeia, é chamada de louca varrida; notar as falhas alheias é deselegante. Se um convidado beber a lavanda ou quebrar um copo, o anfitrião deve fingir que não reparou ou chegar ao extremo de imitá-lo: em hipótese alguma um nobre deixaria um convidado constrangido. Agora entendo por que minha avó, tão lady like, nunca disse “Saúde!” quando eu espirrava…;zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz80

para os nobres, a maior representante de sua classe é a família Thurn und Taxis, cujos ancestrais remontam a 1200; a Casa de Windsor, da rainha Elizabeth II, é um baby em comparação; para a burguesia, a representante máxima da nobreza é a rainha Elizabeth II. Ela é a operária da realeza; a síntese perfeita do que é a compostura. Seu vestido, ao contrário do da mulher de seu neto, não levanta voo — dizem que chumbinhos são costurados às bainhas de suas roupas. Durante um ano normal, a rainha recebe 50 mil pessoas, nunca demonstrando cansaço, enfado, indignação, júbilo ou pesar. Deixar que os outros percebam seu estado de espírito é o máximo da falta de educação; afinal, sua vida íntima deve ser íntima;

reclamar de falta de saúde ou de alguma indisposição é o cúmulo da deselegância. É o fim da picada contaminar a conversa com problemas (pessoais ou públicos). Demonstração pública de tristeza é coisa de plebeu; quando você se irritar com o barulho no restaurante ou dos vizinhos, não se recrimine, pensando que virou um rabugento: você está sendo nobre. Os níveis de decibéis, no mundo inteiro, distinguem as rendas e origens de qualquer um; existe um termo chique para compostura: sprezzatura, difundida por Castiglione no livro “O cortesão”, de 1528. É a arte de se controlar. Não suar, não gargalhar, não deixar lágrimas rolarem e não espirrar na frente dos outros. Mentir para não constranger. Ter aplomb, savoir faire;zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz34

Não estar presente nas mazelas da vida. Conversação que fuja de assuntos de saúde. Ou dizer que está com fome… É elegante nunca ter fome. É elegante não se queixar; o máximo da nobreza? Não invadir o espaço alheio; hoje, vemos muito a etiqueta sem ética. “Só ficamos com o pior da nobreza”, diz Leandro Karnal, “com a noção ‘Eu sou superior a você’”; dizer algo simpático (agradável) sempre que possível. Afinal, sprezzatura não é falsidade, é delicadeza.

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